O JOGO DUAL NA LÍRICA DE CAMÕES E VINÍCIUS
Maria José L. Garcia – Fac. de Filosofia, Ciências e Letras de Cataguases
O amor é paciente e gentil; não é ciumento, interessado ou orgulhoso; não é rude, egoísta ou irritável, o amor não guarda uma lista de erros: o amor não é feliz com a maldade, mas é feliz com a verdade. O amor nunca desiste: sua fé, esperança e paciência nunca falham. O amor é eterno...
I Coríntios 13[1]
As poesias líricas de Camões e Vinícius apresentam-se marcadas por uma dualidade, quanto à forma e quanto à mensagem, conseqüência não só da vida atribulada dos poetas mas também de uma época de crise e transição.
Em Camões, percebem-se textos de nítida herança da tradicional poesia portuguesa, escritos inclusive em redondilhas como o famoso vilancete: Descalça vai pera a fonte / Lianor pela verdura; / vai fermosa, e não segura[2]e poesias enquadradas no estilo novo do renascimento, como os sonetos de análise reflexiva, como Transforma-se o amador na cousa amada (O. C. , p. 30) onde o poeta “diz” da doutrina platônica da idéia e da doutrina aristotélica da forma. Apesar de filosofias opostas na concepção do real, os conceitos completam-se: o apaixonado, “o amador”, transforma-se na “cousa amada”, realizando a filosofia aristotélica. A “cousa amada” que é “esta linda e pura semidéia”, ajustada à alma do poeta, “está no pensamento como idéia”, mostrando que o poeta possui, no pensamento, a idéia do amor e da amada, isto é, a esfera inatingível do platonismo. Por isso, o amor apodera-se do poeta – “o vivo e puro amor de que sou feito”– de um modo semelhante àquele amor em que a “matéria simples busca a forma”. Camões busca, assim, conciliar o amor como idéia e como forma, porque anseia pelo amor em sua plenitude, misturando, ao mesmo tempo, os apelos sensuais e espirituais.
Em Vinícius existe também essa dualidade. São exemplos, quanto à forma, os textos de canções populares, escritos em redondilhas como a Garota de Ipanema[3], Tarde em Itapoã (Con., p. 57 ) e sonetos ao estilo camoniano, pela densidade vocabular e sutileza analítica, como o Soneto de fidelidade[4]. Escrito em Estoril, em outubro de 1939, apresenta influência estilística de Camões. Fala de um amor “Que não seja imortal, posto que é chama / mas que seja infinito enquanto dure”, usando o mesmo jogo antitético comum à lírica camoniana: rir/derramar; riso/pranto; pesar/contentamento; morte/ vive; solidão/ama; imortal/chama; infinito/enquanto dure. Defende a idéia da transitoriedade e, a partir dela, busca o duradouro, havendo, portanto, pontos de contato com a temática barroca.
A harmonia final das tensões opostas, aparentemente inconciliáveis, gera, pela sua oposição recíproca, uma forma superior e mais completa, onde o amor espiritual é o esplendor, aquilo em que a sensualidade se transfigura, quando se deixa conduzir pela força impessoal e universal de Eros.
É na chave de ouro do poema que a idéia de amor se define na conjunção material homem-mulher, desidealizados. Tornou-se, simultaneamente, popular e clássica pela condensação da verdade psicológica do desejo de fruição e fixação do momento feliz.
Esse soneto conserva a elegância e o requinte dos jogos verbais, o estilo engenhoso e poder de síntese e concisão. Chega a recuperar, com rara felicidade, os contornos de uma linguagem clássica quinhentista. É, ao mesmo tempo, clássico e moderno pela atualidade de sua temática.
Percebe-se que Camões, ao seguir a medida velha, e Vinícius, ao fazer canções populares, usam quase sempre os mesmos signos – céu, mar, fonte, natureza, flor, rosa, luar – que são também os mesmos da temática das cantigas de amigo medievais. Os textos de Camões são escritos em terceira pessoa, como o: Na fonte está Lianor (O. C., p.633) e os de Vinícius oscilam entre a primeira pessoa: Samba em prelúdio (Con., p. 56), Minha namorada (Con., p. 53) e terceira pessoa: Tarde em Itapoã (Con., p. 57), Rancho das flores (Con., p. 47) .
O sentimento amoroso, presente na lírica de Camões, apresenta uma complexidade inconciliável porque, na sua conformação, confluíram teorias e idéias metafísicas, cosmológicas, antropológicas, morais e estéticas nem sempre homogêneas.
Os seus fundamentos confrontam-se com o problema das relações imediatas, acidentais do amor com o mal e com o que representa,segundo a perspectiva neoplatônica, o contrário do princípio divino, isto é, a treva, a cegueira, os desconcertos do mundo, a morte, etc.
A orientação aristotélico-averroísta de Cavalcanti[5] se opõe ao racionalismo tomista e ao platonismo, pois vê o amor como um “acidente” de uma “substância”, uma paixão tormentosa gerada na escuridão da alma sensitiva, que entra em conflito com a vida intelectiva, que não tem forma nem cor, que afugenta a luz do conhecimento racional e cujo poder destruidor conduz à morte da alma[6].
Em muitos sonetos camonianos, percebe-se essa visão do amor como em Busque Amor novas artes, novo engenho, (O. C., p. 273)onde o sentimento amoroso aparece determinado por antíteses, como esquivanças/esperanças; perigosas/seguranças; desgosto/esperança.
O amor é uma divindade cega que não traz a paz, e todo jogo de imagens, sustentando o poema, serve como meio de expressão aos pensamentos, que se encadeiam num crescente silogismo, culminando no último verso, onde esculpe o seu conceito de amor:“Vem não sei como, e dói não sei por quê”; “Se tão contrário a si é o mesmo amor”?
Camões, em Amor é fogo que arde sem se vê (O.C., p. 270) busca compreender e definir o sentimento amoroso que aparece vago, inconceituável, não lhe restando senão apelar para as antíteses e paradoxos, talvez fruto de sua vida atribulada, de sua experiência concreta. Nesses sonetos, o amor é uma entidade noturna e cega, uma força perturbadora e lúgubre que contrapõe à concepção neoplatonizante do amor como consubstanciação da própria luz divina e cósmica irradiação da beleza dos corpos do mundo.
O soneto Sete anos de pastor Jacó servia (O.C., p. 298) revela a atitude de Jacó cujo amor transcendia o plano histórico em que vivia e projetava-se para a esfera ideal, contrário à esperteza e à malícia de Labão.
Jacó teria a sua amada, pois o sentimento não era o de desejo carnal, mas o do espírito, que residia na esfera inteligível, onde, para Platão, era a realidade. Jacó vivia para e pelo amor, e a servidão podia atingir-lhe o corpo, mas não a alma, porque possuía sentimentos de plenitude que o ligavam a Raquel. Servia a ela, a si próprio, ao Amor e não a Labão; por isso servia resignado – “Mais servira, se não fora / Para tão longo amor tão curta a vida”!
A tematização do amor, no texto, repousa na idéia do platonismo; o poema é também fonte de rica simbologia amorosa, exprimindo em linguagem mítico-poética a conversão do amor humano em amor divino, do erótico em místico. O amor é sensível à beleza: “Raquel, serrana bela”. Ama ao amor mais do que a própria vida; morre-se de amor se for preciso, e amor sem morte, não existe, como Psiquê que, para recuperar Eros, submete-se às provas impostas por Afrodite e corre risco de vida, como Jacó, o triste pastor que, por amor a Raquel, submete-se a servir mais sete anos, correndo também risco de vida, porque o viver é cheio de enganos.
Os homens, situados ontologicamente entre os animais e as criaturas angélicas, participam da esfera da sensorialidade animal, mas comungam ainda da esfera do intelecto e dispõem de razão que os habita a escolher: são conduzidos pelo amor ao convívio com os seres angélicos que propiciam a união com Deus. No soneto Alma minha gentil, que te partiste ( O. C. , p. 525 ) , Dinamene é a ponte que levará o poeta aos braços de Deus: “Roga a Deus, que teus anos encurtou, / que tão cedo de cá me leve a ver-te, / Quão cedo de meus olhos te levou”.
No neoplatonismo, não são concebíveis a condenação do amor, fundamentada em razões éticas, metafísicas e religiosas, nem a expressão do arrependimento e do remorso por se ter vivido o sentimento amoroso na plenitude harmoniosa da sua dimensão humana e da sua dimensão divina.
O tema do amor ocupa também uma posição privilegiada na lírica de Vinícius que não se limitou a cantá-lo, mas a vivê-lo em todas as dimensões.
Para o poeta, a plena realização do amor era a razão da vida, e a poesia era um meio de tomar conhecimento e espalhar esta verdade. Toda a sua lírica é revestida de signos propícios ao amor: “praia, mar, lua, flor, sonho, barco, etc ”.
Esse sentimento aparece sob as mais diversas formas; ora associado à sensualidade: “Amo-te como um bicho, simplesmente / De um amor sem mistério e sem virtude / Com um desejo maciço e permanente (Ant., p. 253 ) ; ora ao erótico: “Quisera que te vissem como eu via / Depois, à luz da lâmpada macia / O púbis negro sobre o corpo branco (Ant , p. 86 ); ora em composição levemente irônica:
Que se efeminam por profissão mas que são humildes nas suas carícias
Mas tende maior piedade ainda dos que cortam o cabelo:
Que espera, que angústia, que indigno, meu Deus! (Ant., p . 71 ) ;
ou maliciosa: “Com olhos e nádegas. Nádegas é importantíssimo (...) / Mas que as concavidades e reentrâncias tenham uma temperatura nunca inferior / A 37O centígrados, podendo eventualmente provocar queimaduras (Ant., p. 248 ); ora em suaves enlevos líricos, como:
Olha que coisa mais linda
Mais cheia de graça
É ela, a menina
Que vem e que passa
Num doce balanço
Caminho do mar (Con., p. 52 );
ora em versos de sutileza analítica, à moda camoniana, como o Soneto de separação (Ant., p. 149 ), onde mostra a efemeridade que o sentimento amoroso pode vir a ser. O tema efêmero é reforçado pela expressão De repente, em todas as estrofes, valorizando o momentâneo do momento para acentuar o imediatismo em que os fatos acontecem, não mais que “de repente”, ao mesmo tempo em que se busca algo mais perene, porque o homem não tolera a descontinuidade.
Este soneto tem eco de Camões não só pela forma, decassílabo heróico, com cesura na 6a. e 10 a . sílabas, mas ainda, por tratar de tema abstrato, através de signos antitéticos, lembrando a estética barroca: riso/pranto, pranto/silencioso, calma/vento, momento imóvel/drama, amigo próximo/distante, vida/uma aventura errante, de repente (presente)/fez-se (passado). O poema desenvolve-se num jogo de contrastes entre o fazer e o desfazer, os únicos verbos presentes, realçando com os signos nominais, a efemeridade do amor, através do visual.
O poeta queria um mundo preparado para o amor, livre de limitações, pressões, humilhações sociais e econômicas, como em O operário em construção (Ant., p. 263), onde a consciência do problema social é elaborada, como os estágios de construção de um operário. O clímax é a conscientização do operário pronto para lutar pelos seus interesses e pelos da classe, como:
Foi dentro da compreensão
Desse instante solitário
Que, tal sua construção
Cresceu também o operário (Ant. , p. 265).
O amor aparece fundamentado na justiça e paz social. Époema de participação social e, quando o publicou, a esquerda brasileira acreditava na eficácia revolucionária da palavra poética, para a conquista do poder. Esse sentimento absorveu grande parte da intelectualidade, inclusive o poeta que era ainda distante das lutas sociais.
Verificou-se a valorização do humano tanto na lírica de Camões como na de Vinícius porque manifestaram o drama do homem, num momento de crise, de transição. Os poetas cantaram as suas preocupações, teceram as suas reflexões a respeito do amor, da vida humana e das relações entre o homem e o universo.
Buscam respostas para inquietantes problemas do homem; por isso, revelam uma dimensão interior em que as angústias, o paradoxo, as incertezas chegam a levantar problemas, não só individuais mas ainda universais do ser humano.
A ocorrência na lírica de Camões de uma concepção neoplatônica e de uma antineoplatônica do amor manifesta uma crise de racionalidade no poeta, afirmando e contradizendo dramaticamente uma mundividência, sentindo e pensando em termos disjuntivos os valores nucleares do homem e da vida.
Reconhece-se na lírica camoniana uma coerência fundada na angústia da própria incoerência do real, das contradições vivenciais, conceptuais e metafísicas que a razão é impotente para solucionar.
Camões, na análise do sentimento amoroso, mantém uma indiscutível atualidade com o jogo dual: matéria e espírito, corpo e alma.
O amor em Vinícius é um ato de liberdade que impõe suas próprias leis e uma delas é a fidelidade. Viver para o poeta era muito importante, e sua vida foi a ilustração de seu ideal poético.
O que dá autonomia e originalidade à lírica viniciana é a presença, cada vez mais insistente, de sensualismo e erotismo, como dimensão integrada aos apelos espirituais, em invejável harmonia. Por isso, o forte sopro de realismo lhe percorre os versos amorosos, em que a fusão carne-espírito se oferece, com a mesma espontaneidade e fluência que lhe caracterizam o estilo e a linguagem.
A impossibilidade de obter uma síntese desses dois amores: espiritual e carnal, leva a poesia desses autores, algumas vezes, a uma contradição que se manifesta no uso abusivo de antíteses.
Na verdade, é uma trajetória paradoxal tentar decifrar o enigma do amor, que permanece insolúvel e, por isso, o tema é apaixonante.
Referências bibliográficas
BUSCAGLIA, L. Amor. Trad. Por André Feijó Barroso. 7. ed. Rio de Janeiro: Record, 1972. p. 72.
CAMÕESL. de Obra completa. Org., introdução, comentários e anotações do prof. Antônio Salgado Júnior. Rio de Janeiro: Aguilar, 1963. p. 627.
MORAES, L. M. Conheça o escritor brasileiro Vinícius de Moraes. Rio de Janeiro: Record, 1981. p. 52.
MORAES,V. de. Antologia poética. São Paulo: Círculo do Livro, 1967. p. 94.
SILVA, V. M. de A. Amor e mundividência na lírica camoniana. Rev. Colóquio/Letras, Lisboa, 55: 33-46, maio, 1980. p. 34.
[1] Cf. L. BUSCAGLIA. Amor. Trad. Por André Feijó Barroso. 7. ed. Rio de Janeiro: Record, 1972. p. 72. (após conferirem-se várias traduções desse texto bíblico, optou-se pela de Buscaglia, por ser julgada a mais poética).
[2] L. de CAMÕES Obra completa. Org., introdução, comentários e anotações do prof. Antônio Salgado Júnior. Rio de Janeiro: Aguilar, 1963. p. 627. As citações desta obra terão, no texto, a referência: (O. C., p...).
[3] Cf. L. M. MORAES. Conheça o escritor brasileiro Vinícius de Moraes. Rio de Janeiro: Record, 1981. p. 52. As citações desta obra terão, no texto, a referência: (Con., p...).
[4] V. de. MORAES Antologia poética. São Paulo: Círculo do Livro, 1967. p. 94. As citações desta obra terão, no texto, a referência: (Ant., p. ...).
[5] Sobre o averroísmo de Cavalcanti, há um estudo de Corrado Calenda que propõe uma explicação sociológica para a sua obsessiva idéia de destruição. Mostra como as micro-estruturas estilísticas da poesia cavalcantiana manifestam um universo de desordem, de angústia e de medo inconciliável com a concepção do amor como um princípio de ascensão espiritual e de harmonia cósmica.
[6] Cf. V. M. de A. SILVA. Amor e mundividência na lírica camoniana. Rev. Colóquio/Letras, Lisboa, 55: 33-46, maio, 1980. p. 34.